terça-feira, 2 de maio de 2017

Tempo tempo tempo

Existe uma série de conceitos que são revisados quando você se torna uma pessoa grande. A Cássia Eller era bem uma bruxa quando dizia que o "para sempre" acabava. Ela, entre outras, era uma das que desmitificava a sensação mágica, utópica, que fazia da nossa vida um pouco mais lenta, uma possibilidade no meio do infinito.
Quando crianças, tudo parece muito muito distante, tanto que quando a professora fala assim "Vocês verão isso na oitava série" a gente ri porque o que ela não sabe é que naquela idade, a gente tem certeza de que falta tanto, mas tanto pra oitava série que podemos afirmar, com toda certeza, de que ela nunca vai chegar. E o nunca é bem assim mesmo, algo que no começo é só uma risada.
Apesar disso, a tendência de acreditar que as coisas tem um ponto final começa na infância, com a organização temporal, que mesmo sendo uma bagunça, e um dia virando uma eternidade, sabemos que depois da noite vem um outro dia. As histórias tem um fim, a semana acaba com dois dias de descanso, no final do ano há férias e sempre há um aniversário para mostrar que você está ficando cada vez mais velho.
Essa necessidade de fechar ciclos se acentua com a escola, as datas comemorativas, as promessas de ano novo. Você se vê crescendo e o seu tempo infinito agora não passa de números e datas, você começa a reclamar das poucas 24h do dia que não dão pra nada, mas que antes eram mais que suficientes para todas as suas aventuras.
Na adolescência tudo é um caos. O relógio só funciona na função "Cronômetro" e a sua sanidade vai sendo consumida pelos ponteiros que vão sempre pra frente, pra frente. Pra sempre? Nunca? Você já não sabe se pode usar essas palavras para os outros ou para si mesmo. O que eu sou, o que eu faço, de quem eu gosto, a quem eu ouço. Suspendem-se suas certezas como pó translúcido.
Abra uma casa abandonada, pegue os lençóis e jogue a poeira no ar. Deixe pairar. Esse é o adolescente. Aquele que flutua em sua própria instabilidade. Palavra essa que vira um mantra na vida adulta. E o tempo, o para sempre e o nunca, todos, todos agora são relativos.
Sua inocência se perde e a maturidade fecha os olhos que você tem voltados para o mundo fantástico. O para sempre e o nunca não fazem parte da vida adulta porque nessa fase tudo que você não tem é tempo para gastar com bobagens.
Hoje tenho idade pra ser adulta, conceitos por demais infantis e perguntas que pairam na adolescência. O nunca se aplica bem as coisas que fogem do meu paradigma e o para sempre a tudo de nobre que carrego em mim.


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