quinta-feira, 30 de março de 2017

Desenho número 2

Desenhei no meu caderno um sol, grama, uma árvore fofa e fiquei olhando: por quê raios era só isso que ocupava minhas folhas quando criança?

Starbucks

Cheiro de café, livros para baixar, pão com manteiga, filmes românticos, botas e meias. Prevejo um inverno muito agradável.

Didática de português 1

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Meg

Para dor que não tem remédio, faz-se poesia.

Meg

Os efeitos da perda atingem patamares astronômicos quando você questiona a existência de Deus e segundos depois se sente culpado e passível de castigo por ele ter ouvido-me duvidando.

Let it go

Volta a princesa ao castelo de papel crendo a boca como um santuário cujos beijos e palavras provém e tem o mesmo fim: amar delicadamente.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ah, minh' adorada

Se eu tivesse que assumir amor por uma abstração, seria pela Faculdade de Letras da UFRJ. Venho de uma cidade psicológica e geograficamente distante na qual na Universidade Federal do Rio de Janeiro só os mais dedicados e inteligentes ingressavam.
Para completar, fica numa ilha que só não é imaginária porque é possível ver o Centro de Tecnologia da ponte Rio-Niterói. No entanto, apesar de todas as adversidades, e falta de crença no meu potencial intelectual, o meu nome estava na quinta linha da lista de 2013.2
A minha incredulidade do dia que anunciou minha entrada não é menor da que eu sinto quando, logo cedo, ponho meus pés naquele chão de pedra, grama, orvalho e poesia.
Pergunto-me se mais alguém reparou na beleza das florezinhas cor-de-rosa das árvores do estacionamento ou nas paisagens utópicas que dão pra fora das janelas.
Respiro fundo, caminho em direção à porta, estou na minha casa.
Antes eu era uma menina com um sonho, hoje estou quase me formando nele.

terça-feira, 21 de março de 2017

De volta às raízes como todo bom poeta dado ao romantismo

Com muitos gritos afinados, muito cabelo comprido, muita roupinha colada de couro e estilo do rock gemente que eu adoro.

https://www.youtube.com/watch?v=ylbmc1hAofg


segunda-feira, 20 de março de 2017

Livrai-nos de todo mal

Se eu pudesse desenhar, faria muitos traços fortes contrastando com linhas finas no mesmo sentido, para que ficasse bem dramático, bem pesado. Seria uma amazona de um metro e oitenta, com os cabelos escuros ao vento, encaixando o elmo da armadura no topo da cabeça.
A armadura estaria chamuscada, amassada, um pouco gasta de todas as batalhas que ela enfrentou, e apesar de tudo isso, seu rosto ainda estaria sereno. Uma espada e um grande escudo solar no chão. Uma capa esvoaçante e surrada também não cairia mal. Por baixo de todo metal há um corpo feminino, acreditem.
Se pudessem ver o desenho dessa mulher, sentiriam seus corações se curvarem diante de tamanha coragem. Seus olhos estão fechados, voltados para dentro em seu ritual. Não há nada em sua mente, não há uma prega de incerteza na testa, nem tremor nas mãos delicadas.
Ela sabe que nasceu com um propósito, ela sabe que ainda não foi cumprido e que há muitas estradas deveras distantes a percorrer, perigos, e aventuras a sua espera, já era hora de vestir a armadura novamente. Não há arrependimento, tudo é aprendizado, até a queda. Os cabelos estão crescidos, repare, preste bem atenção no tempo que passou. Foi mais que o suficiente.
Ela está pronta para lutar pela justiça, pelo amor, pela paz, por Athena.

Amém.


It's make me wonder


sexta-feira, 10 de março de 2017

Receita - Panetone Trufado

Ingredientes

1 panetone

Para trufa
500g de chocolate ao leite
1 lata de creme de leite com soro
3 gotas de essência de baunilha

Para calda
1 xícara (chá) de água
1 xícara (chá) de açúcar
2 cravos
1 pau de canela

Modo de Fazer

Corte o panetone em rodelas de aproximadamente 2 dedos e reserve.
Para a trufa, aqueça em banho-maria o creme de leite, sem deixá-lo ferver, Acrescente o chocolate picado com a baunilha. Misture bem até tingir uma mistura homogênea. Leve à geladeira.

Misture em seguida todos os ingredientes da calda e leve ao fogo até atingir uma consistência de calda (não em fio). Regue todas as fatias do panetone com a calda e recheie cada camada com a trufa. Enfeite com raspas de chocolate, frutas cristalizadas, cerejas e nozes.

Uma Cunha uma vez disse

Sou todos os poetas que li, mas eles não são eu.

Eu sou

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao seu lado
Você pensa em min toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar
Que eu sou a a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou
Gitâ, Gita Gita Gita!
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada
Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar
Você me tem todo o dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim
Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra "A" tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor
Eu sou a dona de casa
Nos "peg-pagues" do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão
É, mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

quarta-feira, 8 de março de 2017

Rotina

Ocupar a cabeça com coisas academicamente importantes é bem fácil. Primeiro você começa a ler todos os textos indicados pelos professores e não fica só na leitura obrigatória, isso já consome todo tempo. Depois você vai nos assuntos relacionados para se aprofundar um pouco mais e ter um leque maior de comparações, citações, e falando em citações, também é possível considerar a memorização de algumas poesias, só por esporte. Um esporte culto, veja bem.
A seguir, aceite todos os convites para iniciação científica e encontros em grupos de estudo. Quando pensar que já tem coisa demais, lembre-se, você ainda tem tempo para tomar banho, esfregar as próprias costas e deitar. Exercitar as curvas mais lindas do seu corpo não será propriamente dolorido, no máximo exaustivo - psicologicamente falando, no entanto, o coração continua batendo.

terça-feira, 7 de março de 2017

O pote de moedas

- Quando precisar, tire de qualquer outro lugar. Não tire do sonho.

Era só pra dar o troco, mas a frase foi tão profunda que eu acabei tirando do dinheiro da xerox da faculdade.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Receita - Docinho de Panetone

Rende 50 unidades
Tempo de preparo 40min

Ingredientes

1/2 chocotone
1 caixa ou lata de leite condensado
2 xícaras (chá) de amendoim torrado descascado moído sem sal
1/2 xícara (chá) de uva passas 
manteiga para untar as mãos

Modo de fazer

Em uma tigela, mistura o panetone, o leite condensado, metade do amendoim e as uva-passas até formar uma massa homogênea.
Unte as mãos com a manteiga e faça bolinhas com a massa de panetone. 
Passe as bolinhas no restante do amendoim moído e coloque-as em forminhas de docinhos.



quarta-feira, 1 de março de 2017

Retiro Espiritual

Ficar em silêncio, na companhia apenas dos pensamentos, é perceber que a nossa voz é muito alta e quase sempre desnecessária. A dieta das palavras consiste em permanecer com a boca fechada e os ouvidos abertos. Nessa peregrinação pelo seu verdadeiro eu, acaba-se descobrindo que seu trabalho não é procurar, porque ele sempre esteve lá, é só aceitar.
Eu sou a Mariana, adoro crianças, música velha e vídeo game. Sou uma pessoa carente de atenção, canceriana, prefiro o inverno e minha cor preferida é o branco. Entre gato e cachorro, eu prefiro calopsita e meus passa-tempos são: ler, bordar e escrever textos como este. Sou professora de espanhol e português.
Já estudei inglês, espanhol, japonês, italiano, hebraico, latim e grego. Acho que tenho um fraco por idiomas. Sou apaixonada por chocolate, mas morro por uma torta de limão (aqui percebemos os primeiros paradoxos da minha personalidade. Quando for doce, que seja doce, mas quando não, quanto mais azedo melhor. Eu disse AZEDO e não amargo).
Faço coleção de mangás e os amo como se fossem parte de mim, em especial os Cavaleiros do Zodíaco. Também amo a Disney, as minhas princesas são: a Pocahontas, depois a Jasmine, Mulan e Bela <3
Descobri que apesar de simpática e amável, sou muito tímida. Sonho em viajar de novo de navio, visitar o Japão, a Espanha, a Grécia, Macau e Marrocos.
Tenho uma tatuagem do Peter Pan, meu filme favorito continua sendo Titanic, e a música, "Every Breath you take" do The Police. Meu posicionamento político-social é "cuide da sua vida e pare de opinar numa felicidade que não é a sua" e isso vale para as causas feministas, homossexuais, LGBT, etc. Sou uma pessoa indecisa, estou há três anos para decidir o que fazer com a parede do quarto, mas já sei o tema da dissertação de mestrado.
Eu não gosto de baladas (apesar de nunca ter ido a uma, a ideia já me deixa claustrofóbica), odeio a ideia de relacionamentos compartilhados, abertos, traições, chifres e tudo o mais. Gostaria de um dia me casar com vestido e veuzinho, ter filhos e fazer Natais com amigo oculto com a família toda.
Quem sabe ter uma espécie de sítio com árvores frutíferas, uns bichinhos, uma casa na árvore e piscina, as festas juninas lá seriam ótimas! Na lista do que eu quero ver está a neve, o monte Fuji, os jardins do Louvre, a muralha da China e o fundo do mar. Pretendo voltar a dançar a dança do ventre, pular de asa delta, aprender a tocar violão e andar de bicicleta. AH, eu também quero muito ir numa roda gigante.

Enfim, no meu retiro espiritual descobri que sou feita de sonhos e esforços e isso não faz mal a ninguém.