segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"Fechar os olhos é como trancar uma porta"

Mariana, Rosário, Perpétua e Manuela

Carta 2

A luz do abajur ilumina o meu companheiro cujo cansaço é quase tão evidente quanto o meu. Há meses vem pelejando nesta guerra cheia de fundamentos, esperança e morte. O livro é longo e, quando quer, mostra o quão difícil e massante pode ser uma leitura de derrotas.
Angustio-me, choro, fico feliz por Perpétua e inconformada com o destino de Rosário. Sigo identificando-me com Manuela, a que narra e faz diários.
Privo-me do sono como uma viúva das cores, numa conformidade religiosa. Dormir tem me assustado. Temo que os sonhos continuem falando-me e portanto, faço da leitura um belo castigo no qual me encontro, em romance, com a minha face mais moça, a parte sonhadora que preocupa, mas não dói.


A marca na minha pele

Acabo de chegar a conclusão de que as pessoas que mais amei (convicta desse amor) foram as que mais me ensinaram sobre o amor próprio. Não bastava pra elas que eu as adorasse, elas precisavam me mostrar que todo aquele amor exacerbado estava errado porque todos querem ser lembrados, mas apenas quando se sentem carentes.
O ser humano tem dessas de querer se sentir desejado pelo inalcançável e possuir avidamente tudo aquilo que não está ao alcance das mãos. Falo por mim também. E apesar de saber que também sou pecadora, odeio meus semelhantes por tal desdém, pela sua capacidade de jogar fora o amor que - erroneamente - não dediquei a mim, mas a eles. 
Matemática é ridículo de difícil, mas sociologia é um bicho fantasiado de notas boas. Escreve num muro qualquer dia desses "O que significa viver em sociedade?" que o muro vai ser rebocado, pintado, pichado, coberto de limo, demolido por uma empresa de construção de estradas intergalácticas e a pergunta vai ficar ecoando pelo espaço para sempre até todos os seres humanos estejam desnutridos de sentimentos ou simplesmente mortos. Mortos!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Rafaela e Núbia

No último domingo eu estive tomando conta de duas menininhas. Uma de seis (sete agora dia 22/02) e a outra, mais velha, de nove anos. Eram irmãs, mas muito opostas, a mais velha era mais obediente, companheira, sem perder a infantilidade, claro. E a mais novinha, completamente espevitada, corajosa, o tipo de criança que sabe te testar.
A Núbia andou de braço dado comigo, deitou a cabeça no meu corpo na segunda vez que eu dei um "olá".
- Não sei se você sabe, mas a gente já brincou um dia. - Ela disse quando nos reencontramos pela manhã depois de alguns anos sem nos vermos (que pelos meus cálculos, seriam uns três anos).
- Eu sei, lembro-me bem, eu até fiz pipoca pra gente comer junto.
A minha frase a iluminou. "Como é bom quando somos lembrados" pude depreender da expressão facial daquela criança.
Elas pediram para ir à piscina, pediram para a mãe permissão para que eu tomasse conta, porque, afinal, eu já sou grande e posso olhá-las. É uma responsabilidade muito grande, mas eu fui, e já fui ditando as regras.
- Não passem da metade pra lá porque não consigo vê-las e se acontecer algo eu não posso pular pra salvar vocês.
- A sua mãe me disse mais cedo que você não pode entrar na água porque está com cólica. A minha mãe disse que eu tinha muita cólica quando era bebê... Isso quer dizer que você não pode tomar banho? - Perguntou Núbia.
- Hm... - Busquei na memória com que idade, exatamente, a minha mãe tinha me explicado o que era "virar uma mocinha", mas não tive tempo de raciocinar porque já estava demorando muito para dar a resposta, então só disse - É complicado. Eu fico aqui da sombra olhando vocês. Podem ir, mas antes, coloquem os chinelos na sombra.
Núbia brincava na borda rasa da piscina, intencionalmente na minha frente, para facilitar meu trabalho enquanto Rafaela, vulgo Fafinha, dava altas barrigadas quando descia do tobogã. Elas conversaram na borda, Núbia me apontou uma garota com um belo maiô, Rafaela se atreveu a ir pouco além do que eu tinha permitido. Eu incumbi Núbia de ir buscá-la e relembrar meu pedido/proibição. Depois disso eu estive no parquinho, na gangorra, no pula-pula, na sala de computadores vestindo princesas online, e no quarto ao brincar com uma parte da coleção de lego que elas tinham. Minha cabeça voou. Eu já não sabia o que a minha companhia refletia, se eu sentia mais vontade de ser amiga das crianças ou se eu queria uma pra mim.

"Você deve ser a menina mais especial da sua sala."
Tive que segurar o choro quando a Núbia disse isso quando estávamos no balanço. Ela com certeza repararia minha lágrima, só não teria maturidade para entender a minha dor.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quem precisa de um título?

Não importa se a minha amiga vem me ver e assiste a programas de menininha na TV comigo só pra me fazer companhia, ou se ela passa horas falando da reforma da casa pra me animar. Não importa se eu vejo Ross e Rachel se separando, se entendendo e se amando em segredo porque você não sabe nada de Friends mesmo. E não importa se eu vou querer desesperadamente que dormir ao meu lado signifique pra você mais que um estorvo que se mexe demais a noite.
As músicas românticas sempre vão tocar e eu vou me lembrar da música lenta que não dancei com você, da roupa que eu não vesti pra você elogiar ou sei lá, tirar. Nada mais importa, porque não são os textos nem a cor do cabelo, não foi nada disso, nada disso. Foram três dias em que o tempo parou pra que eu percebesse que nada disso importa, mas foi suficiente pra tudo ficar confuso, estranho e eu sentir vontade de não escrever por medo, vergonha ou lucidez demais.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Algum dia de fevereiro

Se me perguntassem, eu diria "escrevo" cartas, não "respondo". Ter o ímpeto de escrever demonstra cuidado com as palavras. O uso de rascunhos, a atenção à caligrafia, ortografia, rasuras e as pausas para a respiração do próximo fazem da carta um produto idealizado unicamente ao meu destinatário - que pode nunca ter reparado nessas regalias.
É difícil planejar sua extensão ou ter estimativas do quão clara ela será... De qualquer forma, se houver algo nas entrelinhas, isso estará protegido dos olhos curiosos, sempre tão leigos.
Concebo neste velho e pouco usado português uma tentativa de valorização para o que nunca se faz e pouco vê. Ria com o bilhete, curta o aviso e a nota, mas ame sua carta. Comunicar-se nos dias atuais por meios tão frívolos pode ser fácil, escrever não.

Atenciosamente,
Remetente.

Ps. Aqui geralmente fica o que você gostaria de ter dito na primeira linha.
Ps.2 Ou algo que tenha esquecido e não pode passar em branco.
Ps. 3 Apesar de "Eu te amo" não precisar de regras de posicionamento ou ser esquecido com facilidade.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A greyness I used to call freedom

Havia uma cama de casal, um armário a esquerda e uma tv em frente, não a mim, mas a você. Diante dos meus olhos apenas letras de um livro eletrônico o qual eu pausava, às vezes, para te perturbar com os pés. O fio o conectava ao videogame que por sua vez o conectava a tela da tv e ao mundo imaginário cujo herói usava uma espada, mas na realidade coçava os dedos para não ajeitar os óculos. Cansado de talvez ser incomodado com aquela baboseira de massagem, você puxou meu pé direito para o colo e num movimento rápido com a cabeça mandou-me sossegar porque travara uma batalha muito importante.
Permaneci comportada passando as páginas do livro, no entanto a atenção estava de fato na coluna corcunda e pernas de índio cruzadas lá na ponta da cama. Comecei a mover os dedos do pé em sua barriga na tentativa de cócegas e consegui arrancar um sorrisinho, eu vi, eu juro que vi. E eu adorava quando você dava corda.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

WestWorld

Sinopse

Westworld é um parque temático futurístico para adultos, dedicado à diversão dos ricos. Um espaço que reproduz o Velho Oeste, povoado por andróides – os anfitriões –, programados pelo diretor executivo do parque, o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), para acreditarem que são humanos e vivem no mundo real. Lá, os clientes – ou novatos – podem fazer o que quiserem, sem obedecer a regras ou leis. No entanto, quando uma atualização no sistema das máquinas dá errado, os seus comportamentos começam a sugerir uma nova ameaça, à medida que a consciência artificial dá origem à "evolução do pecado". Entre os residentes do parque, está Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), programada para ser a típica garota da fazenda, que está prestes a descobrir que toda a sua existência não passa de bem arquitetada mentira.



O que eu gostaria de refletir (Spoiler)

Parece que, nessa altura da vida, o mundo já não se interessa pelo sobrenatural. Filmes, novelas e programas de TV não prendem a atenção falando do desconhecido. Não há mais conquistas de territórios, já cantamos muita glória em cima das guerras. Os deuses de todo tipo de mitologia já foram incansavelmente usados, reutilizados e novamente descartados. Não há mais bruxas, vampiros e lobisomens são um assunto clichê, anjos e demônios foram aposentados.
Não nos interessamos por nada que venha de fora, julgamo-nos controladores de todas as rédeas do universo (apesar dos filmes de astronautas sempre mostrarem tragédias e famílias destruídas). Agora, o que vale a pena, o que ganha atenção é até aonde conseguimos chegar a partir de uma característica que nos torna nobres seres humanos como a ganância elevada ao extremo.
Eu vejo nessa série uma tendência que começou com Matrix, só que um pouco mais aprofundada. Há muitos detalhes, muitas nuances a se perceber no âmbito religioso, simbólico, artístico e fotográfico. Somente hoje, algumas horas depois de ter visto o décimo e último episódio, percebo, homens como criadores, a Dolores é a Eva de WestWorld. Veja só, uma mulher que tem o fruto do conhecimento (metaforicamente simbolizado por um labirinto) e é a responsável pelo caos daquele pequeno mundo.
A igreja funciona como portal para a consciência e o mais incrível, o mais incrível, é como as pessoas se transformam quando tem todas as possibilidades na mão.
"Que tipo de pessoa você se transformaria se visitasse westworld? Um (a) simples depravado, um (a) assassino, aventureiro? Não se acanhe, eu sei que você seria alguém completamente diferente do que finge ser aqui fora." Foi essa mensagem que eu tirei do primeiro episódio e foi com essa que eu terminei o último. Gosto de séries que não se contradizem, que me inspiram e geram questionamento. Voltemos então ao início desse texto, somos ou não uma geração de Narcisos?


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Deus nunca dará o que não conseguimos suportar

As pessoas se esquecem que vivem o que precisam e não o que querem e nesse esquecimento vão acumulando mágoas e culpas que não tem onde jogar porque, afinal, criam expectativas na ilusória sensação de que tudo vai correr como planejado. Essas mesmas pessoas não entendem que por mais que repitam um mantra - muito conhecido - "tudo vai acabar bem, tudo vai acabar bem", que pode ser que se resuma a "seja bom (a) sem precisar de um motivo ou compensação", às vezes, ser bom não será o suficiente e "acabar bem" é apenas um ponto de vista - que, no caso, mesmo que você queira, não será sempre o seu. E apesar de todas as adversidades, pontos de vista, mantras e o caralho, eu diria que as pessoas - e aqui finalmente me incluo explicitamente - deveriam apenas lutar para não se esquecer de quem são.