terça-feira, 18 de outubro de 2016

O terceiro discípulo

Um jovem uma vez soube da existência da lenda de um grande mestre sábio que vivia no alto das montanhas. Ávido por conhecimento, o jovem percorreu um caminho difícil, desfavorável, árduo, mas sem desistir de tudo que poderia aprender com o velho sábio.
Chegando lá no topo da montanha descobriu que não havia provas de resistência física, nem mental. Na verdade não havia nada. Nem seguidores, discípulos, ninguém. Apenas os sinos de vento assoviando uma triste melodia.
O templo principal estava tão empoeirado que suas pegadas ficaram registradas no chão. No centro de duas grandes e grossas pilastras brancas havia uma pintura. Uma silhueta contornava o vento com um grande chapéu, de costas para a pintura. A silhueta estava de pé, apoiado num bastão de madeira. Abaixo da pintura havia um circulo dourado em chamas. Chamas incandescentes que não se alimentavam de nada, apenas queimavam.
- Boa tarde? - Ele chamou.
Não houve respostas.
- Eu gostaria de falar com o mestre. - Anunciou em voz branda.
Também não obteve respostas.
- Aguardarei pelas instruções. Até lá, espero não incomodar se esperar nessa sala.
O jovem sentou em meditação e esperou. Passaram-se quatro noites e três dias. A sua paciência não foi alterada. Ele não pronunciou mais nenhuma palavra dentro do templo, não tentou buscar pistas, não foi além do ponto onde havia parado no primeiro dia.
Era num dos pontos da meditação que se confundia com o sono que sentiu a escuridão cobrir seu rosto. Quando abriu os olhos percebeu que de frente pra ele havia um homem muito enrugado.
- Obrigado por vir até mim, mestre. - Disse fazendo uma reverência.
O ancião fez sinal para que se colocasse de pé e caminhou para fora do templo. Por muitos tempo caminharam em silêncio, parecia uma eternidade. Foram muito além das árvores, para um lugar onde o templo era apenas uma mancha entre as montanhas.
O jovem era paciente. Esperaria até que o mestre falasse para que pudesse ouvir e assim aprender. E com esse pensamento não disse uma palavra por mais três dias. Foi levado a um campo de treino onde viu uma tímida urna de pedra guardando as cinzas de alguém.
Em seguida foi levado a um penhasco alto o qual também, na ponta, reservava uma urna de pedra. O mestre viu que nenhum músculo do jovem se moveu, nem os da face. Não havia espanto ou surpresa.
- De que forma você quer morrer? - Perguntou o ancião cuja voz de dragão fazia o ar vibrar.
O jovem contemplou a maravilhosa vista do céu que dava no precipício, olhou para o campo de batalha no campo oposto.
- Eu não penso na morte, senhor.
O ancião fez um sinal de positivo com a cabeça e apontou com o velho cajado de madeira para o sol.
- Também não deve pensar na vida.

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