domingo, 21 de agosto de 2016

Às 23h

Eu não estava nervosa e, surpreendentemente, não tremia. Poucas vezes na vida me senti tão segura do que queria. Aguardei perfumada, penteada e bem vestida. Recebi-o carinhosa, falando doce. Esperei que ele dissesse as palavras que já sabíamos que seriam pronunciadas aquela noite.
Questionei-me se caberíamos os dois na cama de solteiro e em resposta ele me puxou pela cintura. Claro, agarrados dava e sobrava espaço. No meio do ocorrido abri meus olhos por alguns minutos e quase não acreditei que o que via era real. Ele estava diante de mim, completamente entregue. Senti como se estivéssemos valsando: os movimentos eram reflexivos. Se ele se virava, me virava junto. No dia seguinte soube que não sou tão carinhosa quanto ele gostaria que eu fosse. Desculpe-me, querido, se cometi alguns erros, foi a minha primeira vez. Eu nunca tinha dormido ao lado de um homem.

Eu tenho sede

Pode ser que eu corte o meu cabelo e mude de estilo, que eu vire aeromoça, diretora de escola ou dona de loja. Pode ser que eu me mude, faça um concurso público ou vá fazer mestrado em outro país. Pode ser que eu acredite numa causa e passar o resto da minha vida a defendendo.
Pode ser que eu doe sangue ou qualquer órgão do meu corpo a qualquer momento. Pode ser que eu adoeça, escreva um livro e descubra a razão da vida ou posso simplesmente passar meus dias existindo. O apocalipse, fim do mundo, terceira guerra mundial, pode ser que eu seja demitida. Adote um cachorro, seja vó de calopsitinhas, tire fotos com uma lhama de verdade. O mundo gire para o inverso, a lua se perda pela via láctea e vá morar em Marte. Quebre a unha, ensine uma criança a ler, compre todos os itens da minha lista de desejos.
Tudo pode mudar, tudo pode ser passageiro ou permanente, tudo pode. A única coisa que não pode, mas é, é o meu conhecimento. Quero saber para sempre, em todos os lugares, com qualquer tipo de cabelo, crença ou posses.

domingo, 7 de agosto de 2016

Shhh

É muita exposição, é muita pena, é muito do que não se deve para escrever. A censura excita a vontade, a crítica arde, ácida, na obra de arte. O poeta, passa de frágil, pobrezinho, é dependente. A pesar de doer mais para escrever, de suar mais para compôr, de ter muito mais coragem para ser sensível e sentimentalista do que essas rochas firmes de pedra pomes. E é por isso que de amor eu não falo mais. Nunca mais.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Emoticon do facebook

O coração é mais de quem manda e espera subir do que do seu receptor que não pode vê-los. O amor é recíproco não quando a tecla funciona e o outro, por um acaso, pode ver os corações subindo, mas quando ele também faz o coração esperando outros subirem por você.
Não é pra você ver e pelo que ele sente.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

SACANAGEM

 Martha Medeiros

Vou falar de amor, mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons. O momento é ideal para falar de sacanagem.
Se dei a impressão de que o assunto será ménages-à-trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludi-los. Pretendo, sim, falar das sacanagens que fizeram com a gente.
Fizeram a gente acreditar que o amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes do 30 anos. Não contaram pra nós que o amor não é racionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, só é mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que o casamento era obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre deve haver um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existem mais cabeças tortas do que pés.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples – só é ruim quando feito sem vontade.
Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Shh

Silêncio, mundo! Eu estou amando.


Versinhos que o amor que vive em mim me fez escrever

Começou de forma sutil, uma florzinha de mato e depois uma sensação. Deixei que a cor invadisse o meu mundo e você a trouxe como nome num buquê fino. O casaco, o esmalte, as maçãs do meu rosto. Em breve até o meu sangue mergulhará nesse mar cor de rosa que o seu amor me meteu. Eu te amo com a inocência de uma menina que sente o perfume da margarida. Te amo como se ama a natureza, do jeito que é, na espera paciente do florescer, admirando sem arrancar, me alimentando com o que tem pra dar. Assim viveremos em harmonia, para sempre.