quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ritual

Dia desses eu tomei ar e subi umas escadas. No final dessas escadas encontrei um lugar conhecido, pouco frequentado e cheio de recordações. Muita coisa aconteceu naquele local, conversas, sorrisos, olhares e até beijos. Era saudoso, aconchegante, confortável.
Sentei no chão para meditar e olhar a vista quando de repente senti uma presença ao meu lado esquerdo. Os fios dos braços se arrepiaram. Uma pessoa estava de pé, olhando para mim. Meus olhos estavam fechados, concentrados.
- Eu te vejo. - Disse mentalmente, esperando uma correspondência que foi não apenas um aceno de cabeça, mas o repouso da mão pesada no meu ombro.
- Eu te sinto.
E como se fosse automático, dos meus lábios saiu a última frase:
- Eu te perdoo.
A mão saiu do meu ombro e a presença continuou lá. Até que surgiu outra ao seu lado.
- Eu te vejo. Eu te sinto. Eu me perdoo.
E assim memórias nítidas se posicionavam a minha frente, em semi-círculo, mantendo vivo aquele ritual de perdão e aceitação.
- Eu te vejo. Eu te sinto. Eu te perdoo.
- Eu te vejo. Eu te sinto. Eu te perdoo.
- Eu te vejo. Eu te sinto. Eu... eu... me perdoo.
O perdão nem sempre foi para aquelas memórias, elas não estavam ali para pagar algo relativo ao meu passado, mas o contrário. Era necessário que eu me permitisse errar e pedir perdão a mim também. Naquele momento eu chorei ao me perdoar por erros passados e por perceber que aquelas memórias não poderiam se sustentar por mais tanto tempo na minha cabeça. Elas, assim como eu, precisavam ser libertas.
Após perceber que não havia mais memória a se apresentar eu me despedi e caí no sono. Foi um sono profundo, sem sonhos. Os fantasmas se foram.

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