sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Máquina do tempo

Ela estava sentada de costas para porta, inclinada sobre um grosso caderno, na escrivaninha, muito concentrada. Muito concentrada. Meu Deus, ela não estava nem ali. As imagens do monitor de televisão estavam embaçadas e eu conseguia identificar o quarto e a menina porque me eram muito familiares.
A data no calendário que estava preso na parede era quase ilegível. E num movimento da cortina, ela olhou pra trás. Pude ver em seus lábios algumas palavras sendo articuladas para o vazio. E logo depois um bocejo, uma coçada de olhos.
Fiz sinal de positivo com a cabeça. Se não fosse agora, talvez eu não tivesse outra oportunidade. Olhei para o medidor de força que coloria com sua luz, o cubículo onde eu estava. Verifiquei se a porta estava corretamente trancada e fechei os olhos.

Eu a assustei. Não esperaria outra reação de quem escuta o barulho de um corpo caindo no chão do seu quarto às duas da manhã. Meu corpo foi transportado trinta centímetros a cima do chão e, é claro, não consegui me equilibrar.
Por um momento ela só olhou abismada, e no seguinte escondeu a boca com a palma da mão. A outra mão soltou o lápis e pousou em cima do peito.
Tive medo de mover a boca numa angulação perigosa e provocar um ataque cardíaco na menina. Falar, naquele momento, a mataria de medo. Calmamente me levantei do chão, livrando-me da posição desconfortável sobre o braço, e mantive as mãos onde ela pudesse ver. Se bem que eu estava de luvas. Eu não poderia vestir nada que ela pudesse identificar, nenhum detalhe. Nenhum brinco, nenhum anel, cordão. Ela não poderia ver minha pele, meus pés, dedos, tatuagens. Nada. Por isso eu vestia blusas de manga, calça, luvas e meias do mesmo tom de cinza.
- Que... - Ela começou - Que tipo de brincadeira é essa?
- Não é brincadeira. - Respondi em tom de voz baixo.
A minha voz também não queria sair. Meu corpo queria começar a tremer, queria colocar a mão sobre o peito, mas tinha que me segurar.
- Eu estou dormindo? Isso é um sonho? - Perguntou apavorada.
- Eu preferia que estivesse. Mas a outra máquina está quebrada...
A expressão de dúvida só cresceu em seu rosto. O que EU ESTAVA PENSANDO? Por que falei aquilo da máquina?
- Você está com medo? - Perguntei a ela tentando dar um passo pra frente.
- Não. - Respondeu com os olhos cheios de lágrimas - Você está?
Ela se levantou do puff e veio até a minha frente.
- Eu estou.
- Por que você está aqui?
- Porque eu preciso te pedir para não parar de escrever.
Ela sorriu. Sorriu com os olhos densos, escuros, encantados. Com meus olhos, os olhos que eu tinha quando acreditava. Ela passou a mão no meu cabelo e desfez o coque.
- Eu nunca imaginei que fosse cortar algum dia.
- Você não sonharia com o que ainda vai acontecer com você.

 Meu tempo acabou e eu desapareci de sua frente, desapareci daquela dimensão. Não havia mais espaço para aquela forma de mim. Eu voltei ao passado e mudei tudo. Agora essa versão vai morrer, com certeza, em alguns segundos. E eu espero que a nova tenha um pouco mais de força para escrever... Porque sem escrever eu não tenho aqueles olhos, nem aquele sorriso, nem um pouquinho daquilo que um dia já fui.


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